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Reforma ortográfica





No primeiro dia deste 2009, entrou em vigor – apenas no Brasil, note-se
bem -  o Acordo, longa e acirradamente
discutido, para reforma ortográfica de nossa língua portuguesa, quer dizer, a
nossa, a dos portugueses, a dos angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos (?),
timorenses do leste e quem sabe mais quantos que a amam e, portanto, nela
também vivem – ou vice-versa. Felizmente, há uma longa
vacatio legis, até que estejamos todos a ela obrigados,
legalmente, o que só ocorrerá em 2012. Não me convencem os argumentos de que
teríamos necessariamente que unificar nossa ortografia – ainda bem que a
ninguém ocorreu (ainda?) a idéia de unificarmos também as pronúncias, falares e
linguajares que proliferam, já em nosso imenso Brasil, e ainda mais, pelo menos
em suas diferenças, na origem, mais antiga, o Portugal. Que importa tenham já
todas as outras principais “línguas de cultura” sua ortografia de há  muito uniformizada? A meu ver, isso apenas
demonstra o quanto e há quanto tempo se acham submetidos a um poder
centralizador e despótico, ao “facismo da língua”, de que nos fala Barthes em
sua aula inaugural no Collége de France. Em termos práticos, não me consta que
o único nobelado (ou nobelizado) de nossa língua, José Saramago, tenha sofrido
qualquer espécie  de prejuízo, com sua
exigência de ter seus livros publicados com a mesma ortografia portuguesa em
todo lado. Afinal, como certa feita escreveu nosso poeta Ferreira Gullar, a
crase (e, podemos acrescentar, o ponto e vírgula, cedilha, til, tremas ou
hífens) não foi inventada para humilhar ninguém, e já que era para reformar,
pensando em melhorar, o que significa, entre outras vantagens, trazer aquela da
simplificação, por que criar toda essa celeuma em torno dos hífens? A mim
parece que melhor seria fazer com eles como se fez com o trema – aliás, do
ponto de vista fonético, de alguma utilidade -, eliminando-os  simplesmente – deixando, é claro, para o uso
indiscriminado de heideggerianos e outros poetas. Penso, ainda, que do ponto de
vista cultural teria sido melhor restaurar a antiga ortografia, quando se
grafava as palavras de um maneira que tornava evidente suas origens antigas,
grego-latinas – o “ph” com som de “f”, por exemplo, era sinal de que estávamos
diante de palavra que em grego se grafava com o “phy”. Ah, nesse sentido, o que
se fez foi resgatar as letras estrangeiras para o nosso alfabeto, como o “y” (o
“piscilone” das vogais que meus avós aprenderam na Bahia) e o meu “w”.



           



            Aqui, penso que
estaríamos diante do que o velho Freud chamou de “narcicismo das pequenas
diferenças”, isso que leva, por exemplo, irmãos a brigarem, para se
diferenciarem, por serem tão parecidos, perante os pais e, até, si mesmos – é o
complexo de Édipo, que Freud cogitou em denominar, talvez de maneira mais clara
e direta, “complexo fraterno”. René Girard, por sua vez, em obras como o
clássico “A Violência e o Sagrado”, generalizou essa estrutura para explicar,
pelo efeito mimético, o que permite conviver com outros esse ser tão violento
que somos - de uma maneira que nenhum animal o é, já que neste a violência é
algo posto a serviço da mera sobrevivência, e não de um gozo que só temos nós
os seres barrados por uma interdição fundamental, que nos altera a natureza
animal, tornando-nos esses seres desnaturalizados que somos. Em linhas gerais,
nos identificamos enquanto os que são (ou somos) diferentes dos animais e,
sobretudo, daqueles que por mais parecidos que sejam conosco, não são (a)
gente, como nós. Mesmo os que nascem de nós, precisam passar pelo rito de passagem
que os tornaria como nós, diferenciando-se, definitivamente, de espíritos ruins
e animais, com os quais também se pareceriam.



           



            Pelo visto, até 2012
não se espera nenhuma alteração fundamental em nosso modo de nos percebermos, e
talvez a partir daí, com a ortografia unificada, possamos finalmente nos ver
como a unidade que já somos – e não só os que falam português...


Admin · 433 vistos · 6 comentários
08 Jan 2009. 12:14:36

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Comentários

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Comentário de: Gustavo Bertoche [ Visitante ] Website
Olá, Willis. Concordo absolutamente com você - e acrescento, menos filosoficamente, que essa mudança ortográfica tem também no mínimo duas motivações que não são tão reluzentes: em primeiro lugar, a velha cultura bem conhecida dos brasileiros de aparecer fazendo alguma revolução inútil e, eventualmente, perniciosa; e, em segundo lugar, a pressão dos lobbys das editoras, que anteviram a possibilidade de lucros extraordinários por meio da obrigatória reedição de todos os livros didáticos brasileiros, portugueses, angolanos...
No fim, eu continuarei escrevendo do jeito que sempre escrevi. Faço questão de não me curvar ao \\\\\\\\\\\\\\\"fascismo linguístico\\\\\\\\\\\\\\\" a que você faz referência por meio de Barthes. Não mudarei minha escrita por caprichos e interesses de alguns escritores de Academias empoeiradas e de editoras ávidas de dinheiro.
Abraço!
   05/04/2009 @ 20:11:13
Comentário de: Ricardo [ Visitante ]
Professor,
Parabéns pelo blog, tem textos interessantes e úteis. Gostei particularmente desse e decidi deixar meu comentário aqui.
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